Existem duas “regras” básicas para se avaliar produções culturais como filmes e séries (principalmente as adaptações de livros, quadrinhos e games), que precisam ser levadas em conta na hora de se formar uma opinião.
A primeira e mais basilar é a de que as obras devem ser avaliadas pelo que são e não pelo que deveriam ser, ou seja, não importa sua expectativa ou o desejo que você tenha a respeito de algo que vai assistir, o que importa é o que foi entregue e isso é o que tem que ser avaliado. E a segunda é que toda adaptação fará mudanças em relação ao material original, e as diferenças entre ambas não podem ser consideradas problemas apenas por isso, principalmente quando a lógica interna da adaptação faz sentido em relação às mudanças implementadas.
Dito isso, já dá pra deixar claro desde o início: Lanternas falha em todos os aspectos como adaptação de um núcleo cósmico de super-heróis fantasiosos da DC Comics, ainda que seja boa como série de investigação.
No fim das contas, Lanternas é tecnicamente boa
Como já dito no início, uma obra precisa ser analisada pelo que ela é e não pelo que deveria ser (mesmo com as promessas de Gunn). Com isso em conta, tecnicamente a série é elogiável em vários pontos, principalmente no desenvolvimento do personagem John Stewart e na amarração das questões apresentadas ao longo dos episódios, ainda que os plots não empolguem.
Mas, mesmo aqui cabe uma ressalva: Lindelof sempre foi bom com desenvolvimento de personagens, só que dessa vez o que foi feito com Stewart não encontrou paralelo no Hal.
O trabalho dos atores também merece elogios, de forma quase unânime, com destaque para os protagonistas. E a caracterização de Stewart, com base na animação da Liga da Justiça, está impecável, mas estamos falando da pessoa e não do herói, já que em momento algum vemos John com o uniforme, em sua própria série...
A produção ainda tem uma pegada realista interessante, que lembra o Batman do Nolan ou a série Watchmen, também escrita por Lindelof, e - assim como essa segunda - aborda questões sociais e raciais pertinentes, mas dessa vez de forma rasa e simplória, ao contrário da série em que “os vigilantes são os vigiados” (SIC).
A comparação com True Detective (a série que só tem uma temporada boa, e vive dessa fama até hoje) é pertinente, de fato, ainda que aqui os mistérios estivessem na cara de todos desde o começo, ou alguém demorou muito para sacar quem era o Caçador “original” e que o filho da policial também tinha herdado essa alcunha? E, no fim, o único mistério em aberto até o fim, a identidade do assassino de Jordan, foi o que menos importou para a história, até por ter zero consequência.
Mas, como série investigativa, é inegável que teve seus méritos.
A promessa de Gunn e a linha editorial da atual DC fora das HQs
Aqui é importante frisar que as promessas sobre Lanternas (lembra da segunda regra?) que vieram da própria DC são contraditórias, e ajudaram os fãs a estranharem o tom adotado na produção.
Primeiro, James Gunn prometeu que todo material a ser criado sob sua batuta no estúdio seria um retorno ao super-heroísmo clássico, animado, vibrante, colorido e cartunesco do subgênero, com base inclusive na Era de Ouro dos quadrinhos. Foi dito também que Lanternas seria uma ode ao universo cósmico da DC.
Depois, ainda antes da estreia, o responsável pela série - Damon Lindelof - deixou escapar que, especificamente, ela seria algo mais realista, pé no chão e menos cartunesca. Chegou a falar em “menos cores” (o que se traduziu literalmente no termo “Verdes” cortado do título e nos uniformes apagados dos primeiros trailers), tendo denotado até certa vergonha de estar lidando com super-heróis tão fantasiosos, o que já entrega o primeiro erro que foi sua escalação para cuidar dessa obra.
Vemos então como a DC continua patinando editorialmente ao não saber exatamente o que quer entregar ao público. Se pretendia resgatar o visual e as histórias clássicas de super-heróis, não faz sentido sequer cogitar o que foi planejado para Lanternas em termos de produção.
No fim, escolheu para tocar a série alguém que expressamente se incomoda com o tom que Gunn decidiu abordar. E isso se reflete no material lançado, que parece sempre se envergonhar de ser uma série de super-heróis e tenta se disfarçar de série de investigação.
Os pontos negativos
Na série, o roteiro do trio Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King transforma a seleção de um Lanterna [Verde] em uma entrevista de emprego, depois que a seleção feita pelo anel se mostra problemática.
Bizarro.
Mas antes disso, mesmo quando era o anel o responsável, já vemos problemas. A seleção se dava apenas pelo componente do medo (diferentemente das HQs, que leva em conta a índole da pessoa e sua capacidade para lidar com problemas usando a força de vontade), o que deixa em aberto uma preocupação: será que o anel não pode acabar escolhendo um psicopata em algum momento?
Aliás, será que o John Stewart da série não foi transformado justamente em um psicopata pelos pais, por aquele treinamento impossível de se aceitar mesmo com suspensão de descrença? Isso eliminaria esse “erro” da nossa lista...
Seja como for, ao tirar o componente da força de vontade para focar só no medo, a série ignora o contexto da luz verde que fundamenta os Lanternas [Verdes], já que ela representa justamente essa força do portador do anel. Mais um ponto negativo aqui, portanto.
E sobre o Hal, temos nele o segundo maior problema da série. Jordan nunca é retratado como o herói que devia ser, e nem estou comparando com as HQs, mas com o que é dito dele na própria série. O personagem é um arremedo de virtuosismo, sendo quase sempre uma pessoa execrável, e mostrando até mesmo que aceita correr o risco de assassinar o aprendiz em acidentes de carro (sim, no plural...).
No fim das contas, não conseguimos gostar dele, logo, não sentimos sua perda, nem nos identificamos com seu drama de passada de bastão e envelhecimento.
Além disso, Hal parece nunca saber quando e como usar o anel corretamente. Não se defende direito, não cria construtos quando precisa, faz coisas manualmente quando poderia usar “a maior arma do universo” que está em sua mão. Até em situações de combate. Até em situações extremas.
E, não, a desculpa da baixa carga do anel não serve, mas até nisso vemos erro: quando que uma pessoa experiente com relação a esse aspecto viajaria para outra cidade, distante, para um trabalho que pode levar muito tempo, e deixaria o carregador em casa?
Podemos citar ainda diversos outros pontos problemáticos, como a incapacidade dos poderosíssimos Guardiões em lidar com a retirada do anel de Hal, precisando para isso criar ardis novelescos usando John para “roubar” o artefato do maior membro da Tropa; a incoerência dos critérios desses mesmos Guardiões quanto à punição a Hal apenas por ele ter interrogado um prisioneiro; A produção preguiçosíssima que caracterizou alienígenas presentes na Terra todos com conveniente - e barata - aparência humana, ainda que “justificada”. A cena do assassinato de Jordan: bisonha no desenvolvimento, e na conclusão (com Hal caindo sentado ereto em um banco); O fato de John deixar a assassina de um Lanterna Verde livre como se não tivesse feito nada além de uma travessura; A conversa horrorosa entre Stewart e Gardner que não se sustenta pelo que a própria série mostrou; E por aí segue...
Se analisados os episódios um a um, outros problemas surgem, mas a lista ficaria imensa.
Pra finalizar, pense o seguinte: você iria gostar da série Smallville se nela não houvesse nenhuma manifestação de poderes e Clark nunca mostrasse altruísmo, coragem e o caráter inspirador que o caracteriza como símbolo de esperança?
O legado maldito de Lanternas
Deixando-se de lado os aspectos técnicos e os erros editoriais listados, o pior que a série nos presenteou é a completa destruição de Jordan como super-herói. Em tempos em que a impressão é de que, infelizmente, parece que projetos que trabalham mundos fictícios estabelecidos precisam obrigatoriamente desconstruir alguns personagens, não é de se espantar que tenham “destruído” o maior Lanterna [Verde] dos quadrinhos apenas para cumprir essa cota.
Inclusive, Lanternas lembrou a série Miss Marvel no tocante à completa ausência de heroísmo, altruísmo e exemplos de caráter e comportamento. E são séries de super-heróis (ou assim se anunciaram).
Se você, como eu, gosta do Hal Jordan das HQs, meus pêsames por isso e por constatar que ele está melhor no infame filme com Ryan Reynolds.
Conclusão:
Lanternas é uma boa série investigativa com elementos fantasiosos, mas falha como adaptação de material de quadrinhos, como parte integrante do universo cinematográfico DC de James Gunn, e como série de super-heróis. Junte a isso a atrocidade feita com Hal Jordan, e temos o veredito: detestável.
2 Comentários
Hater maldito só reclamação burra ainda minha série não tem poderzinho
ResponderExcluirTB achei boa mas como True Detective não como série da DC Comics
ResponderExcluirOfensas e violações de boa conduta resultarão em reprovação de comentários
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